terça-feira, 15 de setembro de 2020

Desafios do Brasil na reabertura das Escolas na Pandemia

Por Elida Oliveira, G1

 


Escola particular durante volta às aulas presenciais após pandemia de coronavírus. — Foto: TV Globo/Reprodução

Escola particular durante volta às aulas presenciais após pandemia de coronavírus. — Foto: TV Globo/Reprodução

O impacto da pandemia do coronavírus na educação já leva o Brasil a enfrentar mais semanas de escolas fechadas do que a média de países desenvolvidos. A reabertura das escolas trará desafios específicos para o país, como manter o distanciamento social em turmas com mais alunos que a média e organizar o trabalho de professores, quase 90% deles com idade acima de 30 anos.

Os dados são do relatório "Education at Glance 2020", lançado nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A análise ocorre sobre 37 países que fazem parte do bloco, além de 9 parceiros (incluindo o Brasil).

“O fortalecimento dos sistemas de educação precisa estar no centro do planejamento do governo para se recuperar desta crise e dar aos jovens as habilidades e competências de que precisam para ter sucesso”, disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, ao lançar o relatório em Paris.

“É fundamental que todos os esforços sejam feitos para garantir que a crise não exacerbe as desigualdades na educação que foram reveladas em muitos países. A crise atual testou nossa capacidade de lidar com interrupções em grande escala. Cabe agora a nós construir como legado uma sociedade mais resiliente", afirmou Gurría.

Os principais destaques são:

  • Escolas fechadas: até junho, o Brasil havia passado 16 semanas com escolas fechadas, enquanto a média dos países da OCDE e parceiros era de 14 semanas;
  • Salas cheias: enquanto o Brasil tem em média 24 alunos por sala nos primeiros anos de ensino na rede pública, os demais países da OCDE possuem 21. No ensino fundamental, são 28 alunos em média no Brasil, contra 23 na comparação com os países desenvolvidos. Nestas condições, distanciamento social necessário para a reabertura das escolas vai depender do espaço físico disponível;
  • Recursos limitados: o relatório da OCDE alerta que os governos deverão enfrentar difíceis decisões para realocar recursos, disputados pela área econômica (com auxílios financeiros a trabalhadores e empresas) e pela saúde.
  • Escolaridade e desemprego: antes da pandemia 14% dos jovens adultos brasileiros com ensino médio estavam desempregados. Entre as pessoas com nível superior, o índice era de 8%. Durante a pandemia, houve aumento do desemprego e o acesso ao trabalho remoto foi maior conforme o nível de escolaridade. A conclusão é que, quanto menor o nível de estudo, mais vulnerável a pessoa está ao coronavírus.
  • Professores: os dados do relatório indicam que grande parte dos professores do Brasil não estão enquadrados entre os "jovens", público que estaria mais distante do grupo de risco. Apenas 11% dos professores do ensino fundamental têm com menos de 30 anos, o que é um pouco abaixo da média da OCDE, de 12%.

O relatório da OCDE também analisou dados específicos sobre a evolução da educação técnica e profissional, além do ensino infantil e superior. Confira abaixo os dados:

Ensino técnico e profissional

Segundo a OCDE, a crise atingiu o setor de formação técnica e profissional de forma mais dura. Esta é uma grande preocupação, de acordo com o relatório, já que muitas das profissões que formaram a espinha dorsal da vida econômica e social durante o bloqueio da pandemia dependem dessas qualificações profissionais.

O Brasil tem 8% dos seus estudantes matriculados em cursos técnicos e profissionalizantes, aponta o relatório da OCDE. O índice está abaixo da média dos demais países analisados, que é de 32%. Esta etapa de ensino é o destaque na edição deste ano.

Entre estes estudantes do Brasil, 53% fazem cursos técnicos equivalentes ao ensino médio e 47%, ao ensino superior.

A educação técnica e profissional tem um papel importante na transição dos alunos para o mercado de trabalho, aponta o relatório. No entanto, como este tipo de aprendizagem envolve aulas práticas e pode incluir aprendizagem dentro das empresas, os estudantes deste segmento foram mais afetados pela pandemia devido às normas de distanciamento social e fechamento de empresas, afirma a OCDE.

Ensino superior

A expansão do ensino superior no Brasil cresceu acima da média dos países da OCDE na última década (2009-2019), embora o percentual de brasileiros com diploma ainda seja abaixo dos demais países.

Segundo a OCDE, no Brasil, houve aumentou de 10 pontos percentuais de graduados no período, enquanto nos demais países o crescimento foi de 9 p.p.

Porém, o crescimento ainda não levou a números universais. Em 2019, 21% dos jovens de 25 a 34 anos tinham diploma de ensino superior no Brasil, em comparação com 45%, em média, nos países da OCDE.

As mulheres seguem sendo maioria. No Brasil, 25% das mulheres de 25 a 34 anos tinham diploma do ensino superior em 2019, enquanto o percentual de homens era de 18%. A média dos países da OCDE é de 51% para mulheres e 39% para homens.

Um maior nível de escolaridade aumenta a probabilidade dos jovens conseguirem emprego e salários mais altos, afirma a OCDE.

No Brasil, essa diferença pode chegar a 258%, se comparados os salários de quem tem graduação com quem não terminou o ensino médio – a maior média entre os países analisados.

Educação infantil

Imagem de arquivo mostra criança desenhando durante atividade da educação infantil. — Foto: Helene Santos/Sistema Verdes Mares

Imagem de arquivo mostra criança desenhando durante atividade da educação infantil. — Foto: Helene Santos/Sistema Verdes Mares

O índice de crianças matriculadas em creches no Brasil ainda está abaixo da média da OCDE, aponta o relatório. As salas de aulas também estão mais cheias do que as dos demais países.

Por lei, a matrícula de crianças no Brasil só é obrigatória a partir dos 4 anos. Mas especialistas apontam que a educação durante toda a primeira infância (até cinco anos) é importante para estimular a aprendizagem em um período em que a formação cerebral das crianças está em pleno desenvolvimento. Ou seja, quanto antes, melhor.

Em muitos países da OCDE, a educação infantil começa para a maioria das crianças muito antes de eles completarem 5 anos e há direitos legais que garantem uma vaga por pelo menos um ou dois anos antes do início da escolaridade obrigatória.

No Brasil, 85% das crianças de 3 a 5 anos estão matriculadas em programas de educação infantil. A média da OCDE é de 88%. Dentro desta faixa etária, os dados mais recentes da organização indicam que 21% das crianças com até 1 ano de idade estavam matriculadas nestas instituições no Brasil. Nos países da OCDE, o índice é de 34%. Já entre as crianças de 2 anos, a taxa de matrícula é de 43% no Brasil, 3 pontos percentuais abaixo da média da OCDE, de 46%.

Por aqui, em média os professores desta etapa de ensino atendem a 14 alunos por classe. Na média da OCDE, são 7 alunos para cada professor.

Salário dos professores

Em relação ao salário dos professores, os docentes brasileiros recebem menos que a média dos demais países e parceiros da OCDE em todos os níveis de ensino.

Professores definem planos de aula durante a pandemia  — Foto: Seduc

Professores definem planos de aula durante a pandemia — Foto: Seduc

Na educação infantil, o valor médio anual é de US$ 24,7 mil no Brasil, enquanto a média da OCDE é de US$ 38,6 mil. No ensino fundamental, os valores são, respectivamente, US$ 25 mil e US$ 43,9 mil. No ensino médio são de US$ 25,2 mil e US$ 46,2 mil.

Os dados do relatório indicam que grande parte dos professores do Brasil estão prestes a se aposentar. Apenas 11% dos professores do ensino fundamental têm com menos de 30 anos, o que é um pouco abaixo da média da OCDE, de 12%.

Investimento em Educação

O Brasil está investindo mais na educação do que a média de países da OCDE. Em média, o Brasil aplicou 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação, desde o ensino básico até o superior. O índice é 1 ponto percentual acima da média da OCDE.

Por aluno, o investimento do Brasil, é de:

  • Educação básica (sem educação infantil): US$ 9.084
  • Ensino superior: US$ 11.360
  • Geral (educação básica sem educação infantil até ensino superior): US$ 9.402

Playlist: Especialistas analisam desafios da volta às aulas presenciais

Práticas educativas EJA no Brasil e nos EUA

Os desafios da Educação de Jovens e Adultos durante a pandemia

 Redação,  18 de Agosto, 2020
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“A educação é um pilar importantíssimo para o desenvolvimento de uma nação. Sem ela, não conseguimos avançar em termos políticos, econômicos, sociais e científicos, ou seja, em todas as áreas”. Com esta afirmativa, a doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Tiradentes Eliodete Coelho demonstra uma grande preocupação. Com a pandemia do novo coronavírus e as medidas de prevenção para a doença, muitos setores tiveram que se reinventar. A educação foi uma delas.

Mas, diante de tantos desafios, quais os impactos sofridos na educação básica, mais especificamente, na modalidade de ensino voltada para a Educação de Jovens e Adultos – EJA? “Como a oferta é, principalmente, pela rede pública de ensino, ficou sem atendimento neste período da pandemia, assim como os demais níveis de ensino”, comenta a especialista.

“As escolas públicas fecharam e, sem estrutura para dar suporte aos professores e alunos, não conseguiram atender a rede pública de ensino, por meio do uso das tecnologias digitais, com aulas on-line ou ensino remoto. No caso da EJA, ficou bem mais complicado, porque temos alunos que moram em localidades que não possuem provedores de internet ou, quando existe, é de qualidade baixa, sendo, portanto, de difícil acesso aos moradores. Há casos, também, que tem o provedor, mas os alunos e os professores não possuem condições financeiras em ter a internet em suas casas. São muitas variáveis que inviabilizam a EJA”, acrescenta

A especialista alerta para um quadro preocupante. “Temos no Brasil um quadro assustador sobre a Educação, de maneira geral, e mais ainda sobre a EJA. No ano de 2018, nosso país apresentava um número de 11,3 milhões de analfabetos, correspondendo a 6,8% de uma população de pouco mais de 166 milhões de pessoas acima de 15 anos, de acordo com o IBGE. Embora o Brasil venha registrando queda na taxa de analfabetismo, essa redução está em ritmo bem lento”, frisa.

Eliodete é pedagoga, mestre em Educação Escolar e, atualmente, realiza pesquisas sobre o EJA e os centros que atendem a esta modalidade de ensino. “Minha investigação gira em torno das práticas educativas voltadas para EJA, como elas acontecem no Brasil e também nos EUA. Desenvolvo pesquisa de Educação Comparada sob a orientação da professora Dra. Simone Amorim, que é líder do Grupo de Pesquisa, Educação e Sociedade: Sujeitos e Práticas Educativas (GEPES), do qual faço parte, e desenvolve pesquisas de Educação Comparada”, declara.

“A contribuição da minha pesquisa visa fornecer respaldo científico, visibilidade para os problemas enfrentados pela EJA, as alternativas desenvolvidas e as soluções encontradas em relação às práticas educativas exitosas e que possam favorecer, sobremaneira, para uma atenção maior à EJA. De acordo com a minha experiência, aliada aos estudos realizados sobre a EJA, posso afirmar que não temos políticas públicas direcionadas para a EJA com a devida atenção que a ela deve ser dispensada”, enfatiza.

No Brasil, a EJA possui 3.273.668 de estudantes matriculados. Já no cenário de Sergipe, o Censo Escolar da Educação Básica 2019 aponta que o número de matriculados chega a 42.238 estudantes, sendo 31.718 alunos no Ensino Fundamental e 10.523 alunos no Ensino Médio em escolas públicas municipais e estaduais.

Debate sobre o EJA

Pensando em discutir e apresentar a formação do pedagogo, além das várias possibilidades de atuação do profissional, a mestre em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Unit Rita de Cássia Cardoso idealizou o projeto Papo de Pedagogo.

“Neste momento de pandemia, acredito que é muito importante fornecer uma atenção maior para esta modalidade de ensino. Em conversa com professores e coordenadores tanto da rede municipal quanto da rede Estadual sobre a situação atual do ensino da EJA, o relato é que as escolas estão produzindo cadernos de atividade e enviando para as famílias, via WhatsApp, além de disponibilizar as atividades impressas”, observa.

No último dia 29 de julho, a pesquisadora, que faz parte do Grupo de Estudos e Pesquisa, Comunicação, Educação e Sociedade da Universidade Tiradentes, realizou um debate on-line com o tema “Educação de jovens e adultos: atuação do pedagogo na EJA”. O bate-papo contou com a participação da doutoranda Eliodete Coelho.

Fonte: Assessoria de Imprensa | Unit